Página pessoal de José Luís Reis

Saturday, January 14, 2012

Leituras em dia

A livraria - Penelope Fitzgerald

Um mulher determinada, numa povoação pequena, lutando contra as forças do sistema, consegue abrir uma livraria. O cheiro e o poder dos livros sente-se neste romance muito bem escrito. Uma escrita sensível e ao mesmo tempo poderosa, recheada de humor, leva-nos e emergir no local onde se passa o romance, compreendendo as suas personagens.

"- Fui casada e muito feliz, uma vez que perguntam - respondeu. - O meu marido costumava trabalhar no mesmo sítio do que eu. Depois foi para o antigo Conselho do Comércio, antes de se tornar ministério. Costumava falar-me do seu trabalho quando chegava a casa.
- E era feliz?
- Amava-o e tentei compreender a trabalho dele. Por vezes penso que os homens e as mulheres não são propriamente o mais edequado uns para os outros. Alguma coisa deve ser, é claro."

"- Estou a tentar concentrar-me... Pouse esses, acabaram de chegar e ainda não os verifiquei. Quando uma pessoa dá tudo o que tem, seguramente que tem de ser bem-sucedida.
- Não vejo porquê. Toda a gente tem de dar tudo o que tem, mais cedo ou mais tarde. Toda a gente tem de morrer. E morrer dificilmente pode ser apelidado de um sucesso."

"-«Shower down thy love, O burning bright! for one night or the other night / Will come the Gardener in withe, and gathered flowers are dead!» Christine.
- Cuidadinho, Mister North - disse Christine.
- Que expressões tão desagradáveis te ensinam nessa escola nova que frequentas!"


A Um Deus Desconhecido - John Steinbeck

Voltar ao monstro da escrita é sempre uma lufada de energia que se ganha. A riqueza das personagens, a descrição dos ambientes a envolvência da narrativa, a beleza na utilização das palavras, fazem da escrita de Steinbeck uma constante descoberta de novas sensações.

Elisabeth agarrou-se-lhe ao braço e sussurou:
- Já acabou. Temos de sair. Vira-te lentamente para mim.
Ajudou-o a voltar-se e, enquanto davam o primeiro passo pela coxia abaixo, os sinos começaram a soar no campanário por cima deles. Joseph suspirou, tremendo:
"«Eis Deus a chegar atrasado ao casamento. Aqui está finalmente o deus de ferro. - Achava que seria capaz de rezar, se soubesse de alguma forma poderosa de o fazer. - Assim está bem. Isto é que é o casamento... a boa voz do ferro! - e pensou: - É uma coisa à minha maneira, que eu conheço. Amados sinos, a fazerem retinir os vossos corpos com os vossos corações agitados! São os badalos do Sol a repicar no sino do céu da manhã; é a batida cava da chuva na barriga intumescida da terra e, sei-o bem, aquilo que chicoteava o ar torturado com a relâmpago. E às vezes o vento quente e doce que bate os topos das árvores, numa tarde amarela.»
Olhou para o lado e para baixo, murmurando:
- Os sinos são bons, Elisabeth. Os sinos são sagrados.
Contemplou-o maravilhada, porque a sua visão não se modificara: a face de Cristo ainda se encontrava no rosto de Joseph. Riu nervosamente e confessou a si mesma: »Estou a rezar ao meu próprio marido»."

Steinbeck foi prémio Nobel em 1962.


As vozes de Marraquexe - Elias Canetti

Voltar a Marrocos, voltar a Marraquexe pelas palavras contadas numa sequência de histórias de Elias Canetti é algo de único. "Para uma viagem levamos connosco quase tudo, mas a revolta, a indignação, essas ficam deliberadamente esquecidas em casa. Vemos, ouvimos, maravilhamo-nos perante o medonho, só porque o medonho é algo de novo. O bom e perfeito viajante não tem coração!"

Canetti foi prémio Nobel em 1981.

1 comments:

Ella said...

Ao ler este post fiquei com vontade de ler a Penelope no seu Bookshop :)
Ouvi falar de um livro k é deve ser a tua onda :

Maldito seja Dostoiévski

Autor: Atiq Rahimi
Título original: Maudit soit Dostoïevski
Tradução: Carlos Correia Monteiro de Oliveira
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 207
ISBN: 978-989-97474-5-6
Ano de publicação: 2011