Página pessoal de José Luís Reis

Sunday, November 20, 2011

Leituras em dia.

O que Fazem Mulheres - Camilo Castelo Branco

O livro começa assim:

"A todos os que lerem

É uma história que faz arrepiar os cabelos.
Há aqui bacamartes e pistolas, lágrimas e sangue, gemidos e berros, anjos e demónios.
É um arsenal, uma sarrabulhada, e um dia de juízo!
Isto sim que é romance!
Não é romance; é um soalheiro, mas trágico, mas horrível, soalheiro em que o sol esconde a cara,
Como da seva mesa de Thyeste
Quando os filhos por mão de Atheus comia."

Um livro que começa assim tem de ser lido para encontrar o melhor de Camilo.

"Posso dizer que principiei a amar meu marido, quando as outras mulheres se enfastiam. Aqui tens o que nunca te disse. Não há homem nenhum que seja indigno da estima duma mulher."

"... «Eu já sei como está o Porto, e como se vive por lá. Não quero que a minha mulher ande nas bocas do mundo... »
- Eu não me responsabilizo pelas consequências, Sr. Dias. Ludovina tem brios e pundonor; se ela desconfiar que V. S.ª a encerra em casa, por suspeitar dela, teremos grandes desordens, e não terei poder para acomodá-las.
«Eu não desconfio da minha mulher; se não vou aos bailes é porque não quero que os outros desconfiem, e acabou-se.».

"Ludovina rompeu em gemidos, e caiu de joelhos orando com fervor de desesperação.... Na previsão de todos os infortúnios, concebeu alguém torturas daquela mãe, e da filha que aceita a desonra para salvar-lhe o nome? Desamparados da esperança e de Deus, cobrai alento nas dores com que não podeis, agradecei ao vosso anjo mau os suplícios vindos, pedi-lhes todos, menos o cálice de Angélica, e Ludovina, porque há aí o suco de todos os venenos provados neste inferno da vida, obra-prima duma causa eterna, obra que mais me espanta a mim que a criação dos astros, do mar, e do homem.
A minha grande prova de Deus, da justiça, e da condenação é este inferno. O outro... é inferior à Omnipotência que deixou, no seio da criatura, aberta a garganta do abismo, onde a alma se despenha a devorar-se".

Assim escreve Camilo.


Cidade Proibida - Eduardo Pitta.

Uma história rápida e bem escrita.


O ano da morte de Ricardo Reis - José Saramago

Saramago dizia que era o seu melhor livro; se calhar é!

Uma encruzilha de personagens, onde a realidade (se é que existe) se cruza com a ficção. É um livro riquíssimo, cheio de histórias que nos seduzem à medida que avançamos na leitura, sempre à espera do próximo momento.

"Creio que todo o homem ama sempre a mulher que está a beijar, ainda que seja por desespero."


"Encontrei-a da última vez que esteve em Lisboa, o mês passado, Você gosta dela, Não sei, E de Lídia, gosta, É diferente, Mas gosta, ou não gosta, Até agora o corpo não se me negou. E isso que é que prova, Nada, pelo menos de amores, mas deixe de fazer perguntas sobre a minha intimidade, diga-me antes por que é que não tornou a aparecer, Usando uma só palavra, por enfado, De mim, Sim, também de si, não por ser você, mas por estar desse lado, Que lado, O dos vivos, é difícil a um vivo entender os mortos, Julgo que não será menos fácil a um morto entender os vivos, O morto tem a vantagem de já ter sido vivo, conhece todas as coisas deste mundo e desse mundo, mas os vivos são incapazes de aprender a coisa fundamental a tirar proveito dela, Qual, Que se morre, Nós, vivos, sabemos que morremos, Não sabem, ninguém sabe, como eu também não sabia quando vivi, o que nós sabemos, isso sim, é que os outros morrem, Para filosofia, parece-me insignificante, Claro que é insignificante, você nem sonha até que ponto tudo é insignificante do lado da morte,... viva está a sua Lídia, viva está a sua Marcenda, e você não sabe nada delas, nem o saberia mesmo que elas tentassem dizer-lho..."

0 comments: